Reportagens e entrevistas

Esta entrevista serviu de base, para a matéria que sairá em setembro de 2010, na revista Aventura & Ação.

Não percam! 


(1) Você sempre foi gordinho?

Eu sempre fui “gordinho”. A obesidade sempre esteve comigo, para dizer a verdade, ela me acompanhou durante uma boa parte da minha vida, e para ser mais exato, desde a minha infância, por volta dos meus 6 anos de idade. Eu sempre carreguei comigo o chamado sobrepeso, era aquela criança que tudo mundo achava bonitinha, gordinha, bochechudinha... Não me incomodava com esses apelidos que me davam, acho que por ser criança, não fazia muita idéia dos iminentes problemas que eu teria por causa da obesidade. Mesmo carregando alguns “quilinhos” a mais, sempre fui uma criança ativa, ou seja, jogava bola, praticava judô, corria, andava de bicicleta e por incrível que pareça, escalava os morros pequenos, que ficavam em torno do condomínio onde eu morava. Mas com o tempo, fui percebendo que a obesidade era um grande empecilho na minha vida. Ainda criança, eu percebi que já era visto com outros olhos pela sociedade. Em outras palavras, foi quando comecei a sofrer os primeiros preconceitos por causa da minha aparência, onde na ocasião, eu ganhava apelidos de tudo quanto é natureza. Mas apesar de tudo, eu tinha um pensamento voltado para o esporte, e nunca desisti de ser atleta, sonhava em vencer no esporte de qualquer maneira, mas eu tinha um problema comigo, o excesso de peso, e quando lutava para perder peso, seja praticando alguma modalidade esportiva ou fazendo uso da academia, eu acabava colocando tudo a perder, por causa dos péssimos hábitos alimentares que eu tinha. A relação do quanto você gasta, e do quanto você ganha, é muito ingrata, de nada adiantava ficar horas na academia se depois eu não controlava a minha ingestão calórica, culminado no reganho de peso com o tempo. Sendo uma pessoa obesa, você sempre irá esbarrar em situações desagradáveis. Por mais que a vontade de vencer, e desafiar os seus próprios limites fosse grande, eu já estava enfrentando, por exemplo, problemas de saúde bem graves pelo excesso de peso. O próprio fôlego para o trekking, esporte que descobri em 1996, já não era mais o mesmo. Uma outra questão importante, e que não há como não mencionar, era como se equipar tendo o manequim 54? Essas questões eram muito importantes, e a obesidade era sempre uma barreira para a prática esportiva,

(2) Quantos quilos chegou a pesar?

O peso máximo que atingi foi 130 quilos, com 43 de índice de massa corpórea, ou seja, obesidade grau três (mórbida). Hoje peso 77 kg, e estou totalmente em dia com a relação peso/altura.

(3) Já praticava aventura? Quais atividades?

Sim! Eu praticava sim! Em 1996 eu conheci a minha primeira trilha, foi o Bico do Papagaio na Floresta da Tijuca, que fica aqui no Rio de Janeiro, foi o meu início com os esportes de aventura, e eu me apaixonei de primeira pelo trekking. Um bom tempo depois, eu fui convidado para experimentar o rafting, eu também gostei de primeira, e sempre quando possível, procuro reunir um grupo para desce umas corredeiras no bote.

(4) Você fez a cirurgia do estômago? Quantos quilos você perdeu?

Sim! Eu fiz a cirurgia bariátrica no dia 17 de setembro de 2008. Após inúmeras tentativas para perder peso, eu cheguei numa espécie de rua sem saída. Eu não tive alternativa, pesquisei e pensei bem no que eu estava me propondo a fazer. Mas eu já estava tão desgastado e desgostoso da minha condição de obeso, que me conscientizei que a solução era procurar mesmo um médico especialista no assunto, eu precisava tomar uma decisão na minha vida, uma decisão que a mudaria para sempre. Eu vi que não havia mais solução para perder peso, foi então que resolvi abrir o livro do meu plano de saúde, e procurar o Dr. Antonio Claudio Jamel, especialista em Cirurgia Bariátrica (redução de estômago). Com quase dois anos de cirurgia, eliminei cerca de 62 quilos, e ganhei uma vida nova, onde grande parte do peso perdido, foi de gordura mesmo.

A cirurgia bariátrica ou da obesidade, é um auxílio para a mudança de hábitos, ou seja, um grande processo de reeducação alimentar e de mudança de estilo de vida. Ser gastroplastizado é levar uma vida de disciplina, não é tão fácil, mas também não é tão difícil. Frequentando as reuniões, acompanhando e estudando o assunto, descobrimos que a cirurgia não faz milagre. As pessoas criam uma grande euforia em relação à cirurgia, acreditam que voltando a ser magro, ou sendo magro pela primeira vez, todos os problemas serão solucionados. O tempo passa e algumas expectativas são frustradas, a partir daí as pessoas voltam a utilizar novamente a comida como válvula de escape. Se a pessoa não estiver disposta a mudar sua vida, isto é, hábitos alimentares saudáveis e atividade física, ela pode ter o tão temido “efeito sanfona” e recuperar novamente parte do peso perdido.

(5) Depois que você emagreceu o que mudou na sua vida?

Muita coisa mudou, eu diria que é um mundo de descobertas, das tarefas mais simples as mais complicadas e desafiadoras. Quando pego uma fotografia antiga, eu me assusto, realmente estava com uma aparência que não era minha. Eu precisava me descobrir, e hoje na casa dos 68 kilos, eu realmente descobri que sou uma nova pessoa. Os reflexos destas descobertas são muito positivos, principalmente no esporte, onde inseri a corrida e o trekking no meu cotidiano, e vejo como ficou mais fácil realizar essas atividades, que antes estavam ficando cada vez mais difíceis. Hoje consigo entrar numa loja, e comprar sem medo, uma calça para trekking, até o calçado diminuiu de número, as blusas, que antes eram GG hoje são tamanho P. Mas o que mudou significativamente, foi a minha alimentação e relação com a comida, a reeducação alimentar, juntamente com a prática de esportes, foi fundamental para o meu emagrecimento e manutenção do peso. Eu trato a alimentação hoje como um combustível, e não mais um prazer, eu não desconto mais as alegrias, euforias, ociosidade e tristezas na alimentação. Eu penso no alimento com um combustível para o esporte, ou seja, saber usar o carboidrato na hora certa, ficar atendo as vitaminas e proteínas etc. Enfim, são muitas descobertas, a cada dia surge uma delas, o mais interessante é que descobri que sou capaz de realizar coisas que nunca imaginei na vida, como planejar, por exemplo, uma subida ao monte Aconcágua nos próximos anos.

(6) Como era e como é praticar aventura agora?

Evidentemente que não há com fazer uma comparação, é muito mais fácil hoje em dia, eu me recordo que subi a Pedra da Gávea em 2007 com 130 Kg, além do peso da mochila. Eu completei o percurso em quase 5 horas, e foram as piores horas da minha vida. Na ocasião não fui muito preparado, eu desidratei rápido, bebi muita água e não soube dosá-la, mas mesmo assim, com toda essa dificuldade eu consegui. Nessas atividades, acabava entrando e pesando ali, um fator psicológico, era muito desagradável ficar sempre para trás, ser o último, e ficar sendo monitorado e observado com olhares de preocupação pelas pessoas do grupo. Hoje esta condição mudou totalmente, a mesma Pedra da Gávea, recentemente foi vencida em 2 horas e 20 minutos, e o fôlego é outro, ao invés de ser o último, geralmente sou o primeiro a puxar o grupo, e dar as orientações da trilha. No rafting, esporte que eu também aprecio, sou o participante que fica na ponta do bote, local destinado aos mais leves, e na minha opinião, o mais emocionante quando descemos as corredeiras de um rio.

(7) Quais atividades você pratica?

Eu pratico trekking, rappel, rafting, snorkeling e corrida.

(8) O que te levou a incentivar seus amigos, que estavam na mesma situação que você, a praticar aventura?

Quando entramos no universo da gastroplastia, conhecemos o preço da cirurgia para algumas pessoas. Na verdade estou querendo falar de dois lados, ou seja, o lado positivo e o lado negativo, que está associado ao estilo de vida da pessoa. O lado negativo da cirurgia, isto é, o resultado ruim a médio e longo prazo, está ligado principalmente ao sedentarismo e má alimentação. Quando resolvi fazer a fazer cirurgia, escolhi me aproximar de bons exemplos, e na minha opinião, esses bons exemplos possuem interesse na prática esportiva. Eu procurei fazer amizades, com pessoas com veia para o esporte, só que nenhum deles conhecia o trekking por exemplo, e foi então que comecei a inserir aos poucos esse esporte de aventura no cotidiano dessas pessoas. Com isso, eu criei uma equipe, onde batizei de Equipe A Conquista – Trilhas & Movimento, para reunir não só gastroplastizados, mas também pessoas fora deste meio, que sejam interessadas em saúde, esporte, bem estar e principalmente ajudar ao próximo, já que o ingresso para cada aventura que eu organizo, são dois kilos de algum alimento não perecível, que serão doados a posteriori a orfanatos, asilos e outras instituições de caridade.

(9) Como eles se sentem hoje?

Eu sinto que há um sentimento de euforia, descobertas e realização pessoal para os meus amigos, muitos possuem uma história parecida com a minha, isto é, de luta contra a obesidade e de preconceitos perante a sociedade. E os escuto com bastante atenção e satisfação, tenho prazer pessoal com isso também, particularmente me faz muito bem ouvir relatos dessas pessoas que antes sequer conseguiam subir uma escada.

“Me sinto bem, é uma atividade que dá um prazer imenso, uma sensação de desafio e de estar sempre ultrapassando os meus próprios limites. Antes eu não me permitia, não tinha estímulo e coragem. . .” (Marcos Henrique)

“É a realização de um sonho! Nem eu mesmo acredito que poderia estar aqui no topo de uma montanha...” (Leandro Mendonça – Zeus)

“Luis Henrique! Só você mesmo para me colocar neste vício saudável...”(Juliana Passos)

(10) Qual sua maior alegria em relação a isso?

Minha maior alegria é colher a vida! É poder depois de tantos anos acima do peso, ser visto como alguém normal, com saúde e vitalidade, com corpo e mente saudável. Perceber que consigo superar meus limites, que consigo realizar feitos que estavam apenas nos meus pensamentos, e muitas vezes imagináveis e nunca sonhados.


(11) Qual seu maior sonho?

Meu maior sonho eu estou realizando, que era ser magro e ter uma condição saudável para praticar esportes de aventura. Como desafio pessoal para os próximos anos, eu diria até o maior da minha vida será subir o Monte Aconcágua, será o grande feito da minha vida.