31 de agosto de 2009

Parte 12 - Festividades



A comida esteve e sempre estará presente em nossas vidas, seja em eventos sociais ou em grandes festividades. O que devo fazer? Fugir deles? Impossível! Jantares e almoços de negócios, convenções, seminários, casamentos, aniversários etc. Enfim, uma infinidade de iminentes eventos, e não é necessário se tornar o ser mais ante–social do mundo, pelo simples fato de ser gastroplastizado.

Desde criança que eu sempre adorei uma festa, nas minhas lembranças mais remotas, consigo me recordar de como já tinha uma baita compulsão por doces. Brigadeiros e tortas eram os prediletos. Refrigerantes e salgadinhos também não escapavam, eu até ficava de olho na mesa ou de quem iria servir a comida. O engraçado, é que pelo fato de ser uma criança “gordinha”, o próprio garçom já tomava o rumo em minha direção e dizia:

- Esse ai gosta de comer!

Confesso que gostava mesmo, tudo com açúcar era muito bom, me completava e me dava satisfação, e apesar dos inúmeros apelidos já colocados, não me preocupava com questões de saúde, criança não liga para isso, mas me sentia muitas vezes deprimido por não saber o que fazer para mudar o quadro.

Quando cresci e me tornei adolescente, nada disso tinha mudado, eu continuava arrebentando nas festas. Tenho uma lembrança de ter comido tanto numa delas, que cheguei a vomitar e tudo. Mas daí eu comecei a ter alguns pensamentos, pensamentos com a estética, pois com 14 anos, pelo menos na minha época, você queria dar o seu primeiro beijo, tocar numa garota, passear no shopping com ela, ou seja, as descobertas da adolescência.

Era normal surgir uma festa a cada final de semana, afinal de contas, a minha rede de contatos já era grande naquela época. Apesar dos pesares, mesmo me sentindo diferente, pelo menos tentava disfarçar, compensava com bom humor e bastante conversa. Acho que neste momento, comecei a desenvolver uma boa técnica, isto é, precisava aparecer de alguma maneira e demonstrar alegria, para esconder o que eu achava feio em mim mesmo.

Na fase adulta, que por sinal foi a que eu acordei para os meus problemas, tentei de várias formas emagrecer, mas ao mesmo tempo, acabei adquirindo um novo hábito, ou seja, o de beber cerveja. Bebida realmente tem que ser com muita moderação, mas na farra, quem é que vai se lembrar disso? Já não ligava mesmo, festa e churrasco aos montes, e o comportamento era o mesmo. Era para encher logo a pança, isto é o que interessava.

Depois da gastroplastia, você realmente tem que mudar, continuo frequentando as minhas festas, mas perdi felizmente o hábito de beber, e também posso me divertir sem beber, fiz uma troca de prazeres. Evidentemente, que até da para beliscar uma coisa ou outra, mas você não se sente bem mais consumindo gordura, procuro as opções menos agressivas, isto é, se quiser um salgadinho, pegue um que for assado por exemplo. Outro dia estive numa festa, ou melhor, uma pequena recepção, e achei engraçado uma coisa que aconteceu. Quando fui me servir e me sentar à mesa, uma tia veio chamar a minha atenção, dizendo que eu tinha que deixar para os outros. Foi engraçado ouvir isso, pois eu acabei dizendo a ela que três salgadinhos eram a cota da noite toda, não sei se ela havia esquecido a minha atual realidade, ou se a fama do passado ainda pesava um pouco.

Continuarei frequentando os mesmos lugares, pois a comida sempre estará presente, basta ter a consciência de fazer a coisa certa.

29 de agosto de 2009

Parte 11 – Relação com o trabalho.

Muitos obesos mórbidos são desempregados, é uma situação muito difícil, como se manter sem trabalho hoje em dia? Impossível! Mas posso compreender o porquê e os motivos relacionados a este fato.

A obesidade mórbida é um problema de saúde que ultrapassa em muito a simples preocupação estética. Ela envolve a saúde global do organismo e, inclusive, a saúde psíquica, já que a auto-estima pode estar severamente prejudicada. Recentemente eu estava lendo uma pesquisa, que foi feita aqui no Brasil, ela mostrou que a idade média dos pacientes com obesidade mórbida foi de 39 anos, ou seja, se você parar pensar, justamente a idade que muitos estão conseguindo ter a sua independência financeira e concretizando os seus sonhos.

A pesquisa revelou que entre esses pacientes, 32,6% encontravam-se desempregados e sem ânimo para enfrentarem o mercado de trabalho. As pessoas com peso maior estão relacionadas significativamente com um menor gosto pelas coisas, se sentem tensas, possuem uma sensação de medo e insegurança, como se alguma coisa ruim fosse acontecer, elas possuem elevados índices de depressão.

No meu caso, conseguir um emprego nunca foi fácil, mas tudo bem, se até mesmo os magrinhos de plantão enfrentam a temida concorrência, imagine um obeso então! Mas felizmente conseguia minhas oportunidades, acho que contornava bem a situação nas entrevistas, eu procurava mostrar personalidade e aptidões técnicas. Mas pensando bem, será que nas entrevistas que fiz na vida, alguns entrevistadores não me olharam com desconfiança? Eu realmente não posso afirmar com certeza, mas hoje eu olho para trás e penso que algumas situações que aconteceram, posso não ter conseguido a vaga, por estar “fora” dos padrões da empresa.

Falando da nova fase, é impressionante como ela reflete muito no trabalho, o fator “estar em forma” é muito relevante. Antes me sentia meio cansado para fazer as coisas, fadiga mesmo, quando tinha que viajar então já pensava:

- Caramba! Vou ter que enfrentar aquela cadeira de avião novamente.

Aliás, as cadeiras já são justas e espremidas para quem está em forma, imagine para quem não está! Banheiro do avião nem pensar, virar-se lá dentro era impossível. Mas hoje é tudo diferente, tudo novidade, até sobra espaço na cadeira agora, maravilhoso não?

Falando dos reflexos positivos no trabalho, falo de mais disposição para concluir tarefas rotineiras. Eu trabalho em escritório e fico de frente para um computador como muitos, é um trabalho sedentário, o esforço é mental e não braçal, mas mesmo assim enxergo grandes diferenças. Você sente que as pessoas são outras com você, não os amigos do dia-a-dia, falo das pessoas que não lhe conheciam antes, essas sim, pois agora você está de igual para igual, entendeu a jogada?

De agora em diante eu sei que eu tenho um mundo de possibilidades pela frente, pois um verdadeiro leque se abriu, basta eu fazer as escolhas certas.

27 de agosto de 2009

Parte 10 – A família.

Pois é, cada um tem a sua, talvez seja complicado imaginar o comportamento de cada uma, principalmente depois que o familiar decidir se submeter à cirurgia. Mas ela é ponto chave e crucial, pois ela será um grande alicerce na vida de cada um.

A minha família é enorme, mas a de casa nem tanto, sou filho único e perdi meu pai quando eu tinha oito anos de idade. Portanto, aqui em casa sou eu e minha mãe, falando dela... Minha mãe teve que aprender também, a se alimentar de maneira melhor, creio que não tenha sido muito difícil, pois ela também estava acima do peso e precisava perder uns kilos, e por incrível que pareça, acabou perdendo também.

Quando falo que a gastroplastia é uma vida de regras e disciplina, falo isto com base no que estou vivenciando, pois estas regras em parte, irão ser aplicadas aos seus familiares também. Ultimamente eu tenho observado bastante o comportamento das pessoas, fico perplexo muitas vezes, principalmente quando vou aos supermercados. Quando sua família define aderir a sua iniciativa, digamos assim, ela irá frequentar outras prateleiras do supermercado com você, ela irá buscar alimentos mais saudáveis, ou seja, com pouco açúcar, gordura ou quase nada. Afinal de contas, a pessoa não precisa ser gastroplastizada para comer comida saudável, já que boa alimentação, todos deveriam ter.

Hoje sou muito observador mesmo, é impressionante constatar a excessiva exposição de alimentos nada saudáveis. Meu médico, o Dr. Jamel, constatou bem um fato. Antigamente nós tínhamos três tipos de biscoitos nas prateleiras, um era o biscoito de maizena, outro era o cream cracker e por fim a bolacha água. Hoje nós temos diversos tipos de biscoitos, um mais calórico que o outro, recheados ou não, de chocolate ou não, com cobertura ou não... Quanto você acha que possuí em calorias, um pacote de biscoito de chocolate recheado? A criançada cai dentro, muitas mães não se preocupam e podem estar ajudando a criar um futuro obeso.

Acho que a alimentação em casa deve mudar mesmo, não adianta fazer comida diferente para você, e os outros continuarem com a “farra do boi”. Aqui em casa por exemplo, abro a geladeira e vejo opções interessantes, isto é, frutas, laticínios “lights” e “diets”, alimentos ricos em fibras etc. Mas onde estão as pizzas, os refrigerantes, doces, sorvetes e as salsichas para o tradicional cachorro-quente do fim de semana? Pois é, estes alimentos não estão mais aqui em casa, mas isto não quer dizer que em determinados momentos, você não possa provar uma coisinha dessas.

O fato é que procuro escolher a opção menos agressiva sempre, se você deseja beber um refrigerante, escolha o de marca "Zero" então, mas não pode ser todo dia, tente variar ao máximo. Vocês acham que eu deixei de gostar de pizza? Claro que não! Adoro! Mas sei que só consigo comer um ou dois pedaços, dependendo da espessura da massa é claro. Antes eu comia uma pizza gigante inteirinha, e ainda bebia um copo de 700 ml de refrigerante comum. É necessário se atentar para a frequência também, pois somente em ocasiões festivas ou jantares procuro experimentar algumas guloseimas.

A família de um obeso também sofre, e com certeza foi consultada antes da grande decisão. Já que apoiou e incentivou, que tal colaborar na prática? Eu por exemplo, em determinadas ocasiões, me pego tendo pequenos atritos com minha mãe, ela ainda não entendeu por completo o funcionamento disto tudo. Já criei até as minhas regras, e a primeira delas é nunca deixar outra pessoa colocar comida no prato para você.

Minha mãe sempre acha que estou comendo pouco, mas ela não faz a conta do dia inteiro, o grande erro da vida dela foi não ter imposto limites quando eu era criança. Mas eu entendo o motivo, acho que pela infância sofrida dela, com comida racionada e má alimentação. Quando cresceu, ela optou pela teoria que criança feliz, era criança de barriga cheia.

Acostumar a família as novas rotinas não é fácil, imagino que nas que são grandes seja mais difícil ainda. Minha dica é tentar criar o hábito positivo em casa, ou seja, envolver todos, desta forma todos poderão levar uma vida mais saudável.

24 de agosto de 2009

Parte 9 – Uma vida de descobertas.


Quando falo de descobertas, quero ser mais incisivo nas questões de reaprendizagem. Por que falo isso? Falo porque de fato é tudo novo, por exemplo. De agora em diante, isto é, para a vida toda, terei que fazer uso de suplementos vitamínicos. Por isso é importante frequentar sempre a nutricionista, ela irá monitorar toda e qualquer deficiência de vitaminas que você possa ter. No meu caso, após alguns meses, descobri que estava com deficiência de vitamina B12. Recomenda-se uma única injeção, para repor e suprir qualquer falta, por um longo tempo. Mas nem todos estão sujeitos, uma pequena parte apenas, uns pacientes podem ter esta deficiência e outros não. É o chamado efeito colateral da cirurgia, e até fácil de explicar.

Ocorre que a técnica utilizada, a chamada “bypass” ou “capela com anel”, nome mais popular e conhecido, faz com que parte de cima do estômago, seja grampeada e ligada a uma parte do intestino também cortada. O reservatório fica muito menor, passando de 1 litro e meio para apenas 50 ml. O caminho fica mais curto também, o intestino ganha um desvio e o caminho por onde o alimento irá passar, literalmente passa a ser outro. O fato de o alimento não passar mais pelo duodeno, que é a primeira parte do intestino delgado, localizado entre o estômago e o íleo, poderá causar uma dificuldade de absorção da Vitamina B12, o que não significa que em outras partes do organismo, a Vitamina B12 também não seja absorvida.

Acho que não será tão difícil lidar com essas questões, basta apenas se dedicar e procurar entender como tudo funciona. Acho que neste momento de descobertas e aprendizado, o fator principal que irá sempre estar ao meu lado, é o meu psicológico e o meu estado de espírito.

Como relatei anteriormente, por mais que exista uma redução extrema da fome, fato este causado pela diminuição da produção de “grelina” - que nada mais é, o hormônio que provoca a sensação de fome, nunca deixaremos de gostar de um chocolate por exemplo. As ofertas calóricas estão por ai, e a relação daquilo que se come em calorias, em face daquilo que você deverá se submeter para gastá-las, é uma verdadeira conspiração contra a humanidade. É muito mais fácil ganhar do que gastar, esta é a pura verdade. A palavra agora é equilíbrio, penso que tudo na vida de agora em diante será desta forma. O equilíbrio será aliado a uma contínua responsabilidade consigo mesmo. Responsabilidade de controlar o que você está ingerindo diariamente.

E já que é desta forma, penso que em determinados momentos, posso comer um pedaço de chocolate, mas apenas um pedaço pequeno, não só por causa do “dumping”, mas também por uma questão de controle de peso. No passado era fácil devorar um ovo de Páscoa tamanho grande, quero ter o mesmo prazer de comer um pedaço de chocolate, mas nada com antes, nada de forma exagerada, apenas ser inserido no contexto, isto é, fazer o meu lado social quando necessário.

Quando falo do lado social, quero explicar um pouco melhor. As pessoas que sabem da cirurgia, ou porque você contou, ou mesmo porque contaram a elas, ficam numa espécie de policiamento e fazendo mil perguntas a você. Eu entendo a curiosidade das pessoas, deve ser mesmo difícil elas entenderem, não deve ser fácil elas visualizarem e conhecerem uma nova pessoa.

Quando participo de festas, e não corro de nenhuma delas, diga-se de passagem, procuro conviver como uma pessoa normal, afinal de contas sou normal, só tenho um reservatório menor. Mas às vezes percebo que algumas pessoas, não todas é claro, acabam te olhando como se você fosse um “ET”, ou mesmo uma aberração criada pela medicina.

Mas voltando o assunto festas e afins, acho que devemos agir normalmente mesmo, a comida está presente no nosso dia-a-dia, está presente em reuniões de negócios, datas comemorativas e outros eventos. Não há como fugir dela, basta ter a responsabilidade de saber o que consumir, e principalmente sem exageros é claro. Talvez se tivesse pensado nisto antes, não estaria escrevendo este texto.

Outro ponto que faz mais parte da vaidade, na verdade não só vaidade, mas sim de uma necessidade humana, é o relacionamento afetivo. Estava desestimulado em face as minhas tentativas amorosas, ninguém me olhava com bons olhos. Destoar, não estar em conformidade e não agradar os olhos alheios, nunca foi fácil mesmo. Eu tive os meus relacionamentos, os melhores aconteceram nos períodos que eu emagrecia. Mas quando engordava já não fazia tanto sucesso. Nesta nova fase, e por sinal que fase maravilhosa, passei por experiências muito agradáveis, ser paquerado... Sinceramente a iniciativa sempre foi minha, mas desta vez aconteceram troca de olhares e respostas positivas. Sem querer me aprofundar muito nesta parte, defino como uma verdadeira massagem no meu ego.

A relação no trabalho também melhorou bastante, por mais que esteja num novo trabalho, a disposição para o dia-a-dia é outra, o cansaço de antes só ficou na lembrança. A imagem para o mundo dos negócios também é completamente diferente, se antes o cara obeso poderia manchar até a imagem da empresa, agora você sendo “Slim”, as portas estarão mais abertas para o sucesso corporativo.

Enfim, um universo de descobertas está por vir. O mais importante é focar no resultado e acreditar na vitória. Todo obeso passa pelos mesmos problemas e situações que eu passei, a decisão da cirurgia é muito difícil, tem que ter muita coragem, muita clareza e informação, sobre o antes, o durante e principalmente sobre o depois ou o bem depois.

Parte 8 - O antes, o agora e o depois.


Relatar as experiências do presente é sempre interessante, às vezes você acorda e pensa:

- Caramba! Mais um dia pela frente! Caramba! Eu tenho um desvio dentro de mim, tenho um estômago grampeado com material cirúrgico feito de titânio.

Mas depois que levanto e parto para o café da manhã, esqueço tudo e começo o meu dia com a rotina, que venho tendo nesses últimos meses. Mas não há como se esquecer do passado, sempre a imagem do passado é lembrada, e por você mesmo.

Quando pego uma fotografia antiga, eu me assusto, realmente estava com uma aparência que não era minha. Eu precisava me descobrir, e hoje na casa dos 70 kilos, eu realmente descobri uma nova pessoa. Eu fugia dos espelhos, da balança, dos comentários, ou qualquer outra coisa que tocasse no assunto obesidade. Fugia da verdade, eu reconheço, mas como falei anteriormente, a pressão era muito grande, seja ela da sociedade, ou como a própria pressão intrínseca.

Eu não apago as fotografias antigas, que estão no meu computador. Pelo contrário, volta e meia eu dou uma olhada nelas. Olho bem mesmo, olho para lembrar que nunca mais quero ser daquele jeito, olho para ter um sentimento de motivação e vitória.

As fotografias mais recentes são as que dão mais prazer, eu vejo a evolução a cada dia que passa. Fazendo uma comparação do chamado “antes e depois”, aliás, todos gostam muito de fazer, eu realmente me assusto vendo as fotografias, onde de um lado tem uma pessoa de 130 kilos, e do outro uma pessoa de 77 kilos (até o dia que escrevi este texto). São pessoas completamente diferentes, e talvez por isso, eu agora possa entender finalmente o porquê, de algumas pessoas passarem por mim na rua, e simplesmente não me reconhecerem.

Quando as pessoas te reconhecem, ficam espantadas, elas acham incrível etc. É o chamado efeito reverso, é a melhor sensação de todas, quando ponho minha calça número 40 então... Nem se fala! Fico todo prosa, me sinto bem de verdade, e penso na conquista e nos desafios que estão por vir.

Como disse anteriormente, ser gastroplastizado é viver uma vida de regras e conformidades, no jargão coorporativo eu chamo de “compliance”. Posteriormente irei comentar mais, sobre as fases e dietas recomendadas pela nutricionista. Mas agora, sem querer entrar muito no assunto, irei relatar o que aconteceu nos primeiros dias pós-operatório.

A primeira vez que fui colocar alimento sólido para dentro, não foi uma experiência muito boa, eu me lembro que entalei. Aliás, os entalos e engasgos, todos falavam bastante antes de eu me submeter à cirurgia. Eu não esqueço do dia que comi o primeiro alimento sólido, a comida desceu arranhando, e causando bastante desconforto, acabei pensando:

- Meu deus! Se for assim toda vez, eu já estou me arrependendo do que fiz.

Mas não! Insistir sempre, esse era o meu lema! Até porque era uma questão de tempo e adaptação, até esqueço que sou gastroplastizado, você aprende como comer, e o alimento irá descer bem e sem problemas, basta ter paciência. Mas no início do processo, mesmo sabendo que era necessário me alimentar bem, comia com medo de me entalar, mastigava, mastigava e mastigava excessivamente, é um processo de reaprendizagem. Um belo dia me entalei, foi uma sensação horrível, a boca ficou cheia de saliva, os olhos começam a lacrimejar, e você se sente muito incomodado. Só há uma solução, ou seja, colocar para fora, mas como aconteceu em casa, não havia problema algum, não estaria “pagando mico”.

Mas certa vez aconteceu com amigos, e até mesmo num almoço com um cliente. Tive que disfarçar, pois é chato ter que explicar para quem não conhece o assunto, que essas coisas podem acontecer. A técnica é a seguinte, saia e diga que vá lavar as mãos no banheiro, lá você resolve o problema. E o detalhe é o seguinte, é automático, o próprio organismo se encarrega de lhe ajudar a expulsar o que ficou ali na entrada do estômago.

O alívio é imediato, é impressionante o bem estar em seguida. Esses entalos não são frequentes, pelo contrário, são raros, mas no início eu entalava um pouco mais, ou por esquecer e mastigar pouco, ou porque o alimento não ajudava muito. Carnes por exemplo, muitos reclamam que não conseguem comer carne vermelha. Eu não tenho esse problema, mas as carnes devem ser macias, ajuda muito a passar pelo anel.

Eu não tinha falado do anel! Esse tal anel faz um funil, é como se fosse uma “ampulheta”, mas não para marcar o tempo, apenas quero demonstrar e ajudar as pessoas a visualizarem, como fica o novo caminho por onde passa o alimento. Eu chamo o anel de educador alimentar, pois é impossível comer rápido, se comer rápido irá entalar com certeza. Você com o tempo vai descobrindo o seu tempo, isto é, o tempo correto de ingestão dos alimentos, comer devagar e sem pressa. Recordo-me que num passado não tão longínquo, que eu literalmente mal mastigava os alimentos, e também comia muito rápido.

Na verdade, para ficar bem claro a todos, percebe-se que você terá uma relação muito íntima com o seu estômago. Ele agora é o seu melhor amigo e você sempre antes de comer algo, irá pensar se de alguma forma, se você irá cometer ou não uma infração com ele.

"A obesidade é uma doença do corpo, mas é, principalmente, uma doença da alma. O cara não vai correr com o filho no parque porque ele se sente ridículo. Doença da alma é quando a filha fala: 'Mãe, eu não queria que a senhora fosse na festinha da escola, porque as mães de todas as minhas amiguinhas são magras e a senhora é gorda'. No dia a dia, as pessoas sofrem preconceitos em todas as situações. A saúde, no meu entendimento, é uma coisa ampla. Você tem que estar de bem com a alma e com o corpo", diz o médico-cirúrgico Luiz Vicente Berti, do Hospital das Clínicas de São Paulo”.


* O termo Compliance tem origem no verbo em inglês to comply, que significa agir de acordo com uma regra, um comando ou um pedido.

22 de agosto de 2009

Parte 7 – A retomada aos exercícios e atividades físicas.


Eu realmente tenho que agradecer muitos aos meus médicos. Aos Drs. Jamel, Leo, Isaac e Ednalda, eu sempre serei grato. Agradeço também as senhoritas Loraine (nutricionista) e Simone (psicóloga), sem dúvidas elas são muito importantes no tratamento.

Eu tenho em mente que tudo o que está acontecedo, é o início de um tratamento que será para a vida toda. Já que o pacote mágico não existe, penso que devo colaborar com o gasto calórico e auxílio na perda e/ou manutenção do peso. As imagens que coloco acima, mostro eu retomando os exercícios físicos, por sinal com muito mais prazer e também com a mesma disposição que meus amigos. Até esportes novos estou praticando, nunca pensei que iria experiemantar mergulhar por exemplo.

Confesso que é muito bom, o sentimento de acordar e ver que você não tem as limitações do passado. Poder praticar exercícios e tendo resultados, é o melhor de tudo. Hoje jogo futebol de igual para igual, com pessoas em forma. O conselho que dou é comprar justamente esta idéia, não estou dizendo que você deva radicalizar como eu faço, mas uma simples caminhada irá ajudar bastante, sem contar a vigilância constante com a alimentação.

Parte 6 – Mudança de hábitos.


Tudo aconteceu dia 18 de setembro de 2008, mais precisamente às 17 horas, foi quando eu entrei no centro cirúrgico do Hospital Badim, e acordei às 02 da madrugada, já com um pequeno corte na barriga. Estava super enjoado e cheio de dores, e ali começava a primeira de quatro fases de dieta.

Na primeira fase são 20 dias só no líquido, de meia em meia hora um copinho de 50 ml, com algum líquido recomendado pela nutricionista. Esta fase é horrível, pelo menos eu achei, se você não estiver bem psicologicamente, pode até se arrepender do que fez, mas passa rápido e logo você avança para a fase pastosa até chegar à fase livre.

Mas espera ai? Fase livre? Quer dizer que posso comer tudo como antes? A resposta é não! A cirurgia bariátrica é um auxílio para a mudança de hábitos, ou seja, um grande processo de reeducação alimentar. No meu caso, posso garantir que me ajudou muito, pois hoje procuro ter uma alimentação mais saudável, já que alimentos riscos em gordura e glicose me fazem muito mal, é a síndrome do dumping.

O dumping é a passagem rápida do conteúdo gástrico, ou seja, dos alimentos presentes no estômago, para o intestino, principalmente dos alimentos ricos em açúcar e gordura. Os sintomas comuns são náuseas, fraqueza, suor frio intenso, desmaios e diarréia após a alimentação.

Pois é, ninguém gosta de passar mal, ter o dumping me ajuda muito e acabo me afastando das coisas que mais me engordaram nos últimos tempos, principalmente os doces. Eu era assaltante de geladeira na madrugada, quando tinha pudim então... Hoje nem passo perto, a vontade diminuiu e a consciência fala mais alto.

Ser gastroplastizado é levar uma vida de disciplina, não é tão fácil, mas também não é tão difícil. Frequentando as reuniões, acompanhando e estudando o assunto, descobrimos que a cirurgia não faz milagre. As pessoas criam uma grande euforia em relação à cirurgia. Acreditam que voltando a ser magro, ou sendo magro pela primeira vez, todos os problemas serão solucionados. O tempo passa e algumas expectativas são frustradas, a partir daí as pessoas voltam a utilizar novamente a comida como válvula de escape. Se a pessoa não estiver disposta a mudar sua vida, isto é, hábitos alimentares saudáveis e atividade física, ela pode ter o tão temido “efeito sanfona” e recuperar novamente parte do peso perdido.

Outro fator que contribui muito para o reganho de peso, é o álcool. Ele é o que chamamos de "caloria vazia", ou seja, ele é rico em caloria e não tem nenhum nutriente, aliás, é muito calórico, pois engorda mais do que o açúcar.

O segredo do sucesso é mudar os hábitos, se a pessoa tiver esta consciência, alcançará o seu objetivo.

Parte 5 – A grande decisão de minha vida.



Eu precisava tomar uma decisão na minha vida, pois comecei a ter problemas de saúde também. Acabei explodindo! E vi que não havia mais solução, resolvi abrir o livro do meu plano de saúde e procurar um especialista em Cirurgia Bariátrica.

Engraçado que só havia um! Liguei para o consultório do Dr. Antonio Claudio Jamel Coelho, que é especialista em cirurgia da obesidade. Acabei pensando e falando comigo mesmo! “Você precisa perder os seus medos, e agora vá em frente e seja o que Deus quiser”.

Marquei a consulta e fui muito bem recebido pelo Dr. Jamel, ele me explicou a técnica e quais os procedimentos que eu deveria me submeter. Disse para eu comparecer numa reunião mensal, lá eu pude esclarecer minhas dúvidas e fiquei muito mais seguro e determinado. Percebi que estava no caminho certo, que de uma vez por todas iria resolver o grande problema da minha vida!

Parte 4 – A idade adulta e a consolidação dos problemas.


A idade adulta chegou e as responsabilidades ficaram maiores, novamente eu estava de armas apontadas para a obesidade. Eu estava passando por vários problemas, nem as mulheres queriam saber da minha pessoa, afinal de contas, como falei anteriormente, o “gordinho” sempre fica de fora na lista de preferências das mulheres.

Eu procurava levar uma vida normal, mas era apenas aparência, eu nunca me aceitava como gordo, me olhar no espelho? Nem pensar! Pisar numa balança? Nunca!

Quem é gordo sofre, sofre consigo mesmo, sofre com os preconceitos de tudo e de todos. Comigo não foi diferente, eu tinha que aturar aquela piadinha sem graça do meu aspecto físico. O pior de tudo, é que a pessoa que fez a piadinha, acha que você está gostando. As pessoas precisam entender que a obesidade não é um relaxamento, ou um mero descuido. A obesidade é uma doença crônica, e de difícil solução.

Mas existem pessoas que não estão preocupadas, se estão lhe ofendendo ou não, se estão ferindo a sua alma ou não. Recentemente resolvi processar meu antigo chefe por Danos Morais.

“A agressividade era tamanha que frases como “olha ai o Nhonho” (personagem obeso do seriado Chaves), “gordo faça isso”, “gordinho faça aquilo”, “vou pagar um spa para você gordinho” eram proferidas na presença dos colegas de trabalho e dos clientes em visita ao escritório de advocacia. Jamais o reclamante ouviu do superior hierárquico o seu próprio nome, pois “gordo”, “obeso”, ou mesmo outros apelidos que enfatizavam a sua condição de obeso eram utilizados quando o sócio majoritário solicitava a sua presença ou determinava a realização de serviços”.

Acho que não escolhi ser gordo, se pudesse teria evitado de todas as maneiras, sempre briguei contra a obesidade. Mas por se diferente, será que eu tinha que engolir essas coisas calado? Acho que não!

Procurava esquecer a obesidade, mas é impossível, pois as limitações são inúmeras por causa dela. Comprar uma roupa era uma tarefa muito constrangedora, você não escolhe a loja, é loja que escolhe você. Na maioria das lojas, o último número de calça é o 48, eu já estava usando o 54. Camisas de malha? Só GGG! Era difícil encontrar um tamanho GG que servisse. Certa vez eu cheguei a entrar numa loja, e falei para a vendedora que a roupa era para o meu irmão, e eu nem irmão tenho! A vendedora me perguntou se ele era “fortinho” também! Acho que ela foi de uma sensibilidade tamanha, já pensou se ela tivesse perguntado:

- Ele é gordo assim igual a você?

O fato é que mesmo obeso, continuei com o meu espírito de aventura para os esportes. Os amigos me chamavam para fazer alguma atividade e eu ia, é lógico que eu travava o pessoal, sempre ficava para trás e trazia a desconfiança até dos amigos. E o pior era que eu não parava de engordar, e um dia quando subi na balança e vi 130 kilos, quase caí para trás. Caí numa tristeza que só eu mesmo sabia, e ainda tinha que aguentar as grosserias do meu chefe em relação ao meu aspecto físico.

Foi a partir daí, que eu resolvi fazer a grande mudança na minha vida.

Contarei logo a seguir.

Parte 3 – A juventude com altos e baixos.

Eu tenho consciência dos meus erros, ter parado com as atividades físicas foi uma delas. Eu sou da primeira geração “catchup-mostarda”, e mesmo sabendo dos riscos, o prazer que um Big Mac me proporcionava era muito maior, e você pensa que era apenas um Big Mac? Claro que não! Sempre havia espaço para o segundo sanduíche, além de consumir o refrigerante, a batata frita e o sorvete.

Eu não fazia contas das calorias, comia tudo o que via e do que gostava. Às vezes comia para ter prazer mesmo, para afogar de vez mágoas e angústias da vida. Só que o prazer tornava-se um desprazer logo em seguida, o arrependimento por ter enfiado o “pé na jaca” era iminente.

Quando entrei na faculdade foi farra total, veio aquela cervejada com a rapaziada, nunca imaginei que cerveja fosse tão calórico, hoje eu sei muito bem disso, mas na época nem esquentava, não estava nem ligando para o meu aspecto físico.

Fui a vários médicos e novamente consegui emagrecer, fiz um tratamento a base de anfetaminas, funcionou e emagreci uns 25 kilos, foi ótima a sensação de vitória, pois estava apenas “gordinho” e não obeso ao extremo. Comecei a praticar um esporte novo, fazer trilhas e caminhadas, estava indo tudo muito bem, mas acabei baixando a guarda, e continuei com as farras gastronômicas.

O problema é que nunca deixei de comer as guloseimas, sempre adorei um doce e um chocolate, pizza então nem se fala. Parei com os “remedinhos” que me enganavam também, isto é, tiravam a fome etc.

O resumo da ópera? Os anos foram se passando e acabei engordando os 25 kilos e mais alguns de quebra.

Parte 2 - A adolescência e a constatação dos problemas.

Quando adolescente comecei a fazer minhas primeiras dietas. Que saco! Odiava aquelas dietas que eu tinha que fazer, cortava as coisas que eu mais gostava. Mas confesso que a minha alimentação não era adequada, e por isso a dificuldade em criar um novo hábito alimentar nunca foi fácil.

As experiências da adolescência foram razoáveis, não posso dizer que tudo foi ruim, vivi alguns momentos bons. Mas a danada da obesidade, sempre esteve ali, pertinho e muitas vezes, me tirando do sério em algumas situações. Eu senti na pele a dificuldade de me aproximar das garotas, pois elas não riam pra mim, pelo contrário, elas riam da minha pessoa, pois o gordinho sempre sobra, esta é a verdade.

Dos quinze aos dezessete anos, fiquei no chamado "efeito sanfona", emagrecia e engordava. Quando engordava, desanimava e largava tudo. Era muito difícil mesmo, era uma batalha manter o peso e o controle emocional. Mas mesmo assim, nunca desisti por completo, sabia que de alguma forma precisava perder peso, precisava ser alguém inserido na sociedade sem preconceitos.

Aos dezessete anos resolvi entrar na academia, gostei muito mesmo! Foi uma experiência muito boa, fiz novas amizades e colhi bons resultados, acho que na época emagreci uns 15 kilos e fiquei menos gordo, digamos assim. Nos anos seguintes, com as pressões da vida, estudar, trabalhar e construir um futuro, acabei não me dedicando mais aos esportes e tive a primeira grande recaída. Acabei engordando os 15 kilos e mais uns 5 kilos de quebra. Vivi assim um tempo, até os 22 anos, quando resolvi emagrecer novamente, assunto a ser relatado no próximo post.

Parte 1 - A obesidade infantil.


Durante toda a minha infância, carreguei comigo o chamado sobrepeso. Era aquela criança que tudo mundo achava bonitinha, gordinha, bochechudinha... Não me incomodava com esses apelidos que me davam, acho que por ser criança, não fazia muita idéia dos iminentes problemas que teria por causa da obesidade.

Mesmo carregando alguns quilinhos a mais, sempre fui uma criança ativa, ou seja, jogava bola, praticava judô, corria e andava de bicicleta. No meu tempo não tínhamos computadores em casa, ainda não éramos tanto ligados na televisão, a diversão da garotada era mesmo na rua.

O tempo foi passando e acho que fui me acostumando com a minha imagem, péssimo isto! Logo comecei a sofrer os primeiros preconceitos, mesmo criança ninguém perdoava, os apelidos eram maldosos e começaram fazer parte do meu cotidiano. Recordo-me de alguns, "rolha de poço", "azeitona" e “Delfim”. Para quem não se lembra, Delfim Netto foi Ministro da Fazenda, na época em que os militares governavam. Não sabia quem era o sujeito, um dia vendo o Jornal Nacional na época, vi que o camarada era muito gordo, o que me deixou muito constrangido.

Quando eu estava com oito anos, perdi meu pai, e foi muito difícil conciliar a perda desta proteção paterna, e também conviver com as gozações em relação ao meu aspecto físico. Ao mesmo tempo em que eu não tinha mais o meu protetor, caí numa profunda tristeza pela própria falta dele.

Outro dia conversando com a minha psicóloga, ela me disse que a obesidade está ligada a fatores traumáticos também. Talvez a perda do meu pai, seja de fato, um dos fatores que contribuíram muito para a minha obesidade.

Na minha cabeça obesidade é uma doença, uma doença crônica, onde as pessoas descontam suas angústias, seus problemas e suas ansiedades na alimentação. Sem contar o fato da vida “moderna”, onde cada vez menos fazemos esforço para ter as coisas em mãos, não nos ajudar muito. Mas não passava nada disto pela minha cabeça quando criança, a minha pergunta era sempre outra. Eu pensava quando criança:

- Porque fulano come tanto e não engorda? Porque eu tenho que ser diferente de todo mundo?

Para esta pergunta a resposta não é simples, nem os especialistas conseguiram desvendá-la ainda. Não irei entrar no mérito, do estilo de vida, metabolismo e hereditariedade, quero concentrar aqui nesta primeira etapa, os acontecimentos da minha infância. Acho que quando criança é mais difícil de colocar na cabeça a necessidade de emagrecer.

Poderia ter acordado mais cedo? Acho que poderia sim! Com certeza evitaria muitos momentos desagradáveis e pessoas indesejadas que eu tive que aturar na minha vida.